16.05.2022

Segunda-feira, 16/5 – enredo (mito)
14h as 18h Introdução aos conceitos de amor: o amor como poder social, reflexões sobre teatro: o teatro como espaço democrático, mapeamento de atividades para a semana.

No dia 16 de maio de 2022, na cidade de Curitiba, no Mini auditório do Teatro Guaíra, uma comunidade de amantes se reuniu, 40 pessoas instigadas por um título “Oficina sobre o amor”. Os amantes se encontraram para imaginar uma ação artística amorosa num movimento comunitário aberto para construir juntos uma peça de teatro, uma ação artística, uma performance (?).

O primeiro dia, o passo inaugural do nosso Manual

1 # O mito

Octavio Camargo

O mito (ou a fábula) para Aristóteles é o mais importante dos 6 elementos da tragédia, é a ação.
O mito para a construção dessa peça é o “Amor comunal” ou “a afeição comunista”, assunto que se desdobra a partir de duas palavras tão usadas AMOR e COMUNISMO.
O que essas duas palavras nos dizem, que sensações despertam, o que elas significam, que despertar trazem a nossa imaginação e principalmente quais ações elas impulsionam?

Na perspectiva da Poética de Aristóteles, o mito é o assunto da tragédia. Há diversas maneiras de contar o mito, o que possibilita refletir sobre a comunicação enquanto tal, por exemplo quando o público sai pensando sobre o que era o espetáculo e muitas vezes não encontra resposta.

Essa oficina tem apenas 10 % do caminho traçado os outros 90% são baseados nas manifestações que surgirão no processo colaborativo. A oficina oferece insumos para esquentar o debate através de uma polifonia de vozes por meio de reflexões, debates e palestras sobre: O amor e a filosofia, O amor e a psicanálise, O amor e a justiça e O amor e o estado.

Por meio dessas reflexões polifônicas, contribuições e dos diferentes pontos de vista dessa comunidade de amantes iremos descobrir as feições do mito, seus sentidos e significações para entender de que forma essa afeição comunista pode ser materializada.

1# Movimento e reflexões polifônicas:
Pensar sobre a cidade.
Refletindo sobre o sistema podemos pensar em nós mesmos como cidadãos do amor?
Podemos levar a potência do amor para os nossos ambientes domésticos?
O que acontecerá hoje quando nos despedirmos? Quem sabe podemos carregar essa Oficina para nossa vida cotidiana.

2# Materializações e manifestações de todos os tipos de expressão e linguagens. O que se deseja materializar e manifestar?
Tragam histórias, elementos para a cena, para reflexão e discussão.

3# Situações para as ações: aparatos técnicos como luz, som, cenografia, voz, corpo.

4# Espaços: o teatro dentro, a rua, a cidade fora.

5# Manifestações sobre e de AMOR: um momento sinóptico.

Brandon La Belle

O conceito “afeto comunista” é aberto às perspectivas coletivas, às reflexões e experiências do grupo, horizontes que nortearão a forma de abordar o tema amor, mediar o processo colaborativo e dar forma aos diferentes modos de manifestação artística, tendo como meio o trabalho amoroso baseado no valor relacional.

O que essas duas palavras nos dizem? Quais sensações despertam? O que essas palavras e conceito significam? O que elas despertam na nossa imaginação? Que realidades materiais são transcendidas com a força dessa ideia? E principalmente quais ações elas impulsionam?

Por que estamos falando sobre o amor ? Porque o amor é uma força.

SITUAÇÃO 1: exposição de Brandon La Belle sobre a afeição comunista.

O AMOR COMO FORÇA

O trabalho amoroso: A prática artística e especialmente os trabalhos colaborativos podem ser compreendidos como um trabalho de amor, um trabalho amoroso.

O amor como ação compassiva, o cuidado pelo bem-estar do outro, ação baseada na ética da responsividade. O amor privado, o cuidado a atenção para com as crianças. A responsividade nos leva a pensar o amor como “o cuidar do outro”, talvez um dos exemplos mais intensos seja a experiência de ter filhos/filhas, na ação compassiva de colaborar em seu vir a ser, dando suporte para que eles e elas possam tornar-se.

O amor no espaço público, o amor como poder público. O amor como uma foram de poder público está ligado à responsabilidade moral à força que nos motiva a agir de certa maneira em relação à determinada injustiça social, as razões que nos levam a devotar nossas forças em prol de determinada causa. Essa motivação pode ser entendida como um tipo de fé, que nos faz acreditar na possibilidade de transformação social.

O amor transcendental e uma modo de devoção espiritual, tal como o amor à Deus, que decerto modo pode ser entendido como amor à sabedoria, tal como em certas tradições, nas quais a sabedoria e a devoção são meios para superar e transcender as realidades materiais. O amor é o que nos conecta a certa transcendência, tal como a ideia original da filosofia (amor á sabedoria) que se iguala a ideia de amor aos modos de vida, não apenas no discurso, mas na manifestação do bem viver. O amor como modelo para nosso modo de viver.

O afeto comunista é o amor como força capaz de interromper a hegemonia do capitalismo, que insiste nas relações baseadas no valor de troca, enquanto o amor investe no valor relacional. Nesse sentido o amor é potência transcendental que pode colaborar na superação de certas realidades materiais. A isso o autor Richard Gilman-Opalski chama de afeto comunista. O afeto comunista é uma forma de amor político.

Politica anti-politica. Woman in Black

Craft – Ofício, artesania, o manejo cuidadoso com as coisas, o toque amoroso para com os materiais a fim de realizar o belo, fazer algo belamente. Um ato de dedicação.
O fazer com amor, nos remete as coisas que fazemos por amor, tal como os hobbies, uma oposição entre o trabalho pesado e o trabalho por amor.
O amor por si mesmo.
O amor relacional.
O poder do amor político.
O Amor pelos outros: “A crença de outros seres humanos como tal é amor” Simone Weil. Segundo Opalski isso significa que não basta reconhecer outros seres humanos, mas demanda amar acreditando neles tal como eles são, acreditar, confiar naquilo que aquele ser é, como realmente é. Ou seja, um amor que se baseia na realidade, não numa aparência corporal, ou num ser tal como desejamos, ou imaginamos que são, mas tal como são.
O amor também pode ser uma dor.

Comunidade de Amantes

Carol Mascarenhas: Como a proposta de amor comunista pode se contrapor ao patriarcalismo, que se utiliza inclusive do trabalho gratuito para se impor?
Júlio Santos: Apoio mútuo – horizontalidade
Luiz Reikdall: Leo Buscaglia ensinava uma disciplina chamada Amor.
Amante A: Pode ser o dinheiro uma forma de amor?

Zoraia dos Santos: O amor no teatro permanece como uma única cor. E por acaso ele é feito exclusivamente poe essa e para essa cor? Onde está o amor?
Téa Camargo: O amor em Pierre-Joseph Proudhon (1809 – 1865).

Referência colaborativa de Andressa, o amor e a justiça em Proudhon:

“Então, se a Justiça é «uma faculdade positiva da alma, uma potência da mesma ordem que o amor, superior mesmo ao amor, ela não é apenas uma noção moral, uma relação concebida pelo entendimento e admitida pela moral; ela é, conforme Proudhon se esforça por mostrar” algo de real: «Eis porque dissemos e repetimos tantas vezes que a Justiça não é somente para nós uma ideia; que ela é também uma REALIDADE; que é com a condição de ser prévia mente uma realidade que ela pode tornar-se uma ideia; é por isso enfim que o direito e o dever, em suma, a lei moral, se torna obrigatória, constituindo a essência do nosso ser, o que não seria possível se se reduzisse a uma pura ideia”? A Justiça deve ser objectiva ou real, introduzida consequentemente na política e na economia, com incidência na produção e repartição dos bens. A justiça não é, pois, segundo Proudhon, uma representação sem conteúdo, mas uma forma de prática social; ela reside na relação de igualdade e de reciprocidade: é uma modalidade da ação, esse ato no qual os homens se reconhecem na sua dignidade e igualdade, participando igualmente numa obra coletiva na reciprocidade dos seus interesses” (ROCHA, 2009, p. 14)

Fernando Marés: O amor é uma manifestação cultural, o amor é singular em cada cultura. Aprende-se em casa e na comunidade o que é o amor.
Adriana Tabalipa: Amor metafísico, o amor por Deus, o amor por si mesmo.
Amante P: Qual é a manifestação artística do amor?

SITUAÇÃO 1: O palco à mostra, as cortinas vermelhas semi-abertas iluminadas. No centro do palco duas cadeiras, uma com assento e encosto preto de plástico e pés de metal está caída no chão. A outra cadeira preta, mas de assento móvel está de pé.

SITUAÇÃO 2: 10 amantes são convidados a subir ao palco e materializar sua percepções.

Luiz Reikdal: Em 2008, me formei em teatro e deixei os palcos em 2014. Hoje, me dedico à culinária, sou chefe de cozinha vegana, e quero unir performance à culinária.

Luana Madsen

Matheus Funaki: Sou aluno do Octavio Camargo, sou muito agradecido e honrado por participar desse workshop. O que me trouxe aqui foi justamente a palavra amor. Algo que une a todos nós e que talvez seja um ponto em comum entre nós. Eu gostaria de saber como posso me expressar para me comunicar com o público de um modo que seja mais produtivo, benéfico e amoroso.

Fernando Marés

Rosa Maria Dantas: Me afasto um pouco para identificar vocês. Comecei minha vida fazendo teatro, eu sou de Recife. Tenho o desejo de comunicar, sempre contei histórias para os meus filhos e isso me levou a escrever. Hoje eu escrevo, faço contos. Fiz faculdade de Letras, foi uma alegria e eu sabia que ali estava o meu destino. Depois, fiz direito e trabalhei um pouco com isso, mas a minha vida são as letras, porque eu posso me comunicar através da escrita, por meio dela eu sou. Eu sou uma pessoa simples. Estou feliz em compartilhar aqui com doutores e pós-doutores a minha história, eu não sou muito de falar, prefiro escrever, sou mais de ouvir. Eu sou Rosa Maria, cidadã do mundo, não sou de Recife, não sou do Paraná

Henrique Vasconcelos: Muito boa tarde a todos sejam muitos bem vindos. É uma alegria estar aqui. Gostaria de pensar sobre Curitiba, sobre o que inscreve o espírito da cidade. Parece que Curitiba inviabiliza pessoas e forças criativas. Curitiba tem uma cultura do esquecimento, que é muito normalizada. Esse modo de pensar talvez esteja conectado com um um passado fantasmagórico. E se o amor é uma potência que ele traga a coesão e quem sabe juntos e com amor possamos ser reconhecidos. Me chamo Henrique, sou artista plástico.

Nathalie Rocha: Sou artista visual, trabalho com cinema e teatro e sou mãe. Para mim o contraponto do amor é a indiferença. Uma indiferença com a falta de compreensão com as mães, creio que devemos humanizar o ambiente de trabalho, reduzindo cargas horárias. No áudio visual chegamos a ter diárias de 12 horas.

João Debs

Adriana Tabalipa: ( Entra ao palco retira o tênis, os coloca lado a lado. deixa a sua bolsa, atrás da cortina e as meias, as coloca lado a lado com cuidado, acaricia a cortina deixando apena sua mão a mostra, tira o xale, o coloca ao lado da bolsa, esticado, caminha sobre ele. Dá a volta, esconde-se atrás da outra cortina. Vai ao fundo da cena, no centro do palco abre os braços, caminha de olhos fechados, abres as palmas em direção ao céu, coloca as palmas em frente ao rosto. Procura algo na bolsa, tira um perfume) Estou muito feliz de estar com vocês, honrada e interessada em compartilhar com vocês esse tempo, para vermos o que podemos realizar e criar.

Jaqueline Lau: Boa tarde, eu me chamo Jaqueline, eu sou atriz e estudo artes visuais na Embap. Estou feliz em compartilhar esse tema com vocês, o amor é muito falado e não abraçado. Acho que juntos vamos conseguir falar de arte e amor. No início da pandemia eu tive um AVC e tive o lado direito paralisado. Eu pensava, será que um dia eu iria voltar a falar? E hoje eu estou aqui falando de amor, falamos tanto de Deus, mas eu penso que existe algo a mais.

Carol Mascarenhas: Teriam 4 pessoas dispostas a abraçar pós-pandemia? Abre a cortina totalmente. Ela dirige a cena. Coloca as cadeiras lado a lado.

Sou atriz, produtora, palhaça, comediante. O humor é transgressor, o amor que eu conheço é latino. Assim quente (abraça). Amor é troca, o oposto do amor é opressão. Há um tempo eu não sei o que é amar artisticamente, desde 2018, eu não sei o que é amar meu país. Eu tô com ódio e eu ouvi uma música da Elis que me deu esperança no Brasil. Eu não sabia nada sobre essa oficina, mas eu sabia que era isso o que eu estava precisando. Eu preciso de ajuda para resgatar minha fé no amor de todas as formas e dar um chute no cu do patriarcado! O amor está na Revolução.

Júlio Cézar Santos

Giovanna de Almeida: A indiferença é uma oposição ao amor. Nós nos conectamos tanto pelo amor quanto pelo ódio. Por amor evitamos situações de conflito, mas através do conflito mostramos nossa intimidade, dizemos coisas que queremos dizer é por meio dele que nos tornamos mais próximos um dos outros, nos tornamos mais íntimos.

João Pedro Soares: Eu sou ator, comediante, sou curioso, para mim deixar as coisas como estavam quando chegamos é amor. Cuidar e manter as coisas como elas estavam pode ser uma atitude transgressora.

Katia Horn: Eu amo estar aqui, eu amo a minha mãe e amo minhas irmãs e irmãos, meu sobrinhos e sobrinhas, e a partir daí eu vou amando meu vizinho, meus amigos. Eu sou a mais velha e fui aprendendo a amar em casa, cuidar de uma criança é ́algo que precisa muito amor. Amo desenhar, esculpir, cantar, eu vim porque eu estava procurando isso. E talvez se não fosse por isso eu não teria topado fazer uma oficina, por uma semana inteira, porque eu tenho tanto para fazer.

Magdalena Ferrara (olha para a plateia, fixa seus olhos nos olhos das pessoas) “Olhar nos olhos é um ato de amor”.

Richard Rebelo: Vocês vão trabalhar bastante essa semana. Porque amar dá um trabalho danado. As pessoas desistem disso.

SITUAÇÃO 3: Caminhar pela cidade:

Demonstrações de amor
Conhecer os amantes dessa comunidade
Aplaudir pessoas.
Abraçar o chafariz em uma roda coletiva,
Abraçar as pessoas.
Ouvir pessoas.
Aplaudir o carrinheiro. o coletor de recicláveis
Relembrar o passado de prédios da rua XV

Texto: Andressa Medeiros
Fotos e editoração web: Gilson Camargo

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