19.05.22

Quinta-feira, 19/5 – música (melopeia)
14h as 18h Música e arte sonora, temas abordados no livro “Acoustic Justice: Listening, Performativity, and the Work of Reorientation”, de Brandon LaBelle.
20h Palestra: O Amor e o Direito: “O amor, o crime, a lei”
com Rita de Cássia Lins e Silva

Advogada. Mestra e doutora em Filosofia política (PUCPR), pós-graduada em Direitos humanos (USP), Direito socioambiental (PUCPR), Direito constitucional (UFPE) e Metodologia do Ensino (UFPE). Atualmente é pesquisadora do Centro de Estudos da Constituição da Universidade Federal do Paraná, membro conselheiro do Conselho Permanente de Direitos Humanos do Estado do Paraná, membro titular das seguintes comissões da OAB-PR: comissão de direitos humanos, comissão de assuntos culturais e comissão de estudos constitucionais.

No dia 19 de maio de 2022, na cidade de Curitiba, no Auditório Glauco Flores de Sá Brito, 37 personagens se encontraram para escutar ativamente os arredores, para se escutarem, produzir sonoridades, descrevê-las, desenhá-las, representá-las.

Manual para a construção de uma peça de teatro

3 # Música e Escuta

OCTAVIO CAMARGO

A música para Aristóteles é a parte da tragédia que produz maior beleza na linguagem (lexis). A linguagem embelezada compreende o ritmo das palavras, a harmonia da música e do canto, por meio de movimentos ritmados dançarinos também imitam personagens, emoções e ações.

Para nós a música envolve os sons, os ruídos e a vocalização, o ritmo, a intensidade, a escolha das palavras, os gestos, movimentos corporais e a escuta. Entendemos que o teatro é uma fala que pressupõe escuta e que toda fala recebe agência do ouvinte, pois quem fala responde aos gestos corporais e falas do ouvinte. No monólogo pode-se pensar que o aquele que fala por meio do discurso direto pode assumir em muitos momentos o discurso direito, tornando-se desse modo o próprio agente da escuta.

Agência da escuta

BRANDON LA BELLE

A música é uma arte em torno da qual identidades e comunidades se estabelecem, seja pelo afeto que dá origem a uma banda musical, seja pela cultura que se desenrola a partir de estilos musicais. Uma identidade social por meio do afeto e do som e uma comunidade que cria um construto a partir da potencialidade do som.

O som é uma onda capaz que se propagar pelo ar e por outros meios a partir da vibração de suas moléculas. Deste modo metaforicamente podemos entender o som como um fio que conecta diferentes espaços ao se mover de um lugar para o outro.

A produção sonora abarca o ruído e a voz.

A voz é uma produção sonora que media relações, mas quando se fala na maioria das vezes temos em mente um ouvinte. Deste modo, podemos pensar que a escuta participa na modelagem da relação. Porém quando ouvimos uma voz, ouvimos também uma série de ruídos e sons. E nossa escuta pode se direcionar aos sons não-humanos ou a sons irreconhecíveis.

Então, quais são os aspectos que emergem da relação entre som, voz e escuta?

O valor democrático do “vamos fazer barulho”

Como o som e as vozes podem criar caminhos para a realização social e participação na vida pública? Como eles participam da vida pública e das arenas democráticas? Como o ruído pode ser uma potência para forçar a entrada de outras vozes nos espaços públicos?

O ruído interrompe o conhecido do espaço político, assim pode trazer uma voz que não estava lá, o ruído pode chegar por meio de novos vocabulários também, como por exemplo, a introdução do pronome neutro, que levanta uma discussão trazendo para o espaço público, político e para as arenas democráticas novas vozes.

Justiça Acústica

O que é ouvido?

A ideia de justiça acústica reorganiza a distribuição daquilo que é ouvido possibilitando a entrada de outras vozes, formas de representação e orientação para a escuta. A justiça acústica reflete tanto sobre o que é escutado quanto sobre a forma de escutar, ou seja, como orientamos o que é dito.

Nessa mesma direção seria interessante refletir sobre o modo como determinadas produções sonoras orientam nossos movimentos, como seguimos e produzimos padrões rítmicos e harmônicos. Ou seja, por que determinados padrões sonoros são mais aceitos do que outros? O que isso pode significar em termos de interrupção de padrões excludentes? De que modo modificar ou ampliar esses padrões sonoros podem convidar outras pessoas e vozes a nos seguirem? Como uma modificação na produção sonora pode incluir novas direções e discursos para uma sociedade a sociedade O que . Pensar a respeito da produção mais justa?

O livro de Sara Ahmed, é excelente referência para se pensar a agência da escuta. Nesse livro Sara atualiza as concepções da Fenomenologia como experiência central para investigar modo como estamos interconectados e em como os corpos encontram suporte nas coisas que nos rodeiam.

Pensemos nessa cadeira, na qual estou sentado, ela me dá suporte e me localiza. A cadeira e meu corpo estão interrelacionados, e ela me modela e me orienta em relação ao espaço e às pessoas. Sentado nessa cadeira eu me lembro que essa cadeira não é uma cadeira genérica, ela tem características singulares, e essa singularidade seao mesmo tempo me faz lembrar que ao mesmo tempo é uma cadeira que , ação

Essa cadeira é uma variante em outra dimensão da variação de cadeiras, que trazem à tona suas relações com sua vizinhança: essa cadeira, na qual estou sentado, me dá suporte e me localiza. Essa cadeira é o que é, ao mesmo tempo em que conecta-se do seu lugar singular, com outras cadeiras em volta dela, com as quais forma uma constelação de cadeiras. A especificidade dessa cadeira não será a mesma conforme apareça num determinado agrupamento de cadeiras ou em outro, porque essa cadeira se faz ver num tempo e num espaço específico, tornando visível aspectos invisíveis relacionados a essa cadeira, tais como histórias, pessoas, economias.

Do mesmo modo meu corpo não é um corpo genérico e ele se interconecta, se orienta e se modula em relação a certas forças que lhe deram suporte, as quais situam meu corpo nesse mundo, forças que também caracterizam esse corpo de um certo modo. Essas relações são linhas a partir das quais me oriento. Essa orientação me permite ver certas coisas e não ver outras, então essa orientação é uma espécie de perspectiva.

Concentrando-se  na ” orientação” no sentido da “orientação sexual”, do “orientar” e no “orientalismo”, Ahmed examina o que significa para os corpos estarem situados no espaço e no tempo. Os corpos tomam forma à medida que se movem pelo mundo, dirigindo-se para ou para longe de objetos e dos outros. Estar “orientado” significa sentir-se em casa, saber onde está ou ter certos objetos ao seu alcance. As orientações afetam o que está próximo ao corpo ou o que pode ser alcançado. Uma fenomenologia Queer, afirma Ahmed, revela como as relações sociais são organizadas espacialmente e como a queeridade rompe e reordena essas relações ao não seguir os caminhos aceitos, assim como uma política de desorientação coloca outros objetos ao alcance, que podem à primeira vista parecer errados.
Ahmed propõe que uma fenomenologia Queer possa investigar não apenas  o conceito de orientação é informado pela fenomenologia, mas também a orientação da própria fenomenologia. Assim, ela reflete sobre o significado dos objetos que aparecem – e aqueles que não aparecem – como signos de orientação em textos fenomenológicos clássicos como as Ideias de Husserl. Ao desenvolver um modelo Queer de orientações, ela combina leituras de textos fenomenológicos – de Husserl, Heidegger, Merleau-Ponty e Fanon – com insights extraídos de estudos Queer, teoria feminista, teoria crítica da raça, marxismo e psicanálise. Fenomenologia Queer aponta a teoria Queer em novas direções ousadas. Resenha do livro de Sara Ahmed, Fenomenologia Queer – Orientations, Objects, Others, 2006.

Reorientar

Como a perspectiva Queer pode colaborar no sentido de romper com certas linhas para nos reorientarmos e remodelarmos nossa agência auditiva? De que modo podemos propor novas tonalidades, novos ritmos, harmonias para reorientar que o que ouvimos?

Performatividade Acústica

um dos caminhos para reorientar nossa escuta é refletir sobre as normas acústicas que definem nosso hábito de escuta.

Pensando na agência da escuta não apenas como um ato passivo e receptivo, mas como força e potência que impacta sobre as coisas e pessoas e sobre o mundo, essa consciência, por sua vez, se relaciona com o direito de fala, livre expressão. Mas o que seria o Direito de Escuta? Como pleitear o direito de escuta?

Referências:

O Direito da Escuta,  Astra Taylor, 2020.

Complaint!, Sara Ahmed, 2021.

Sonic Agency -Sound and Emergent Forms of Resistance, Brandon LaBelle.

MODOS DE TRABALHO

SITUAÇÃO 5

O que é o som, o que é música, o que é o ruído?

Caminharemos até o Passeio público para ouvir ativamente o entorno, as coisas humanas e não-humanas por 30 minutos, com esse giz podemos ir deixando alguns vestígios de nossa passagem no caminho, desenhando o que ouvimos. Podemos ainda anotar o que ouvimos de quatro modos:

  • Descrição objetiva, por exemplo, carro, água, ganso, etc..
  • Desenhar cartogramas sonoros a partir das sensações anotando texturas, cores, intensidades, etc.
  • Graficamente por meio de desenhos, formas, rabiscos, etc.
  • Descrição interior de que modo o que ouço me afeta, que memórias, lembranças, pensamentos e sensações despertam?

O Amor e o Direito: “O amor, o crime, a lei”

Palestra Rita de Cássia Lins e Silva

A palestra emocionante de Rita Lins e Silva nos trouxe algumas reflexões importantes para pensar o amor no direito. Ela nos mostrou que a organização do espaço do tribunal tem uma agência própria, um espaço para a performance onde os atores se posicionam em lugares definidos. O tribunal e especialmente os de Juri Popular podem ser entendidos como um lugar onde se performa uma ação democrática na busca por justiça.

Para Rita é preciso compreender que a oposição de ideias, a discussão e o embate são necessários na democracia. Entender o tribunal como um espaço democrático significa também lutar, porque esses espaços são atravessados pela agonística, por jogos dialéticos, técnica de argumentação para fazer valer uma opinião e se fazer justiça. Deste modo, tornar espaços de decisão democrático tal como o tribunal do juri, significa que as ideias do do bem comum e do bem viver precisam ocupar os espaços públicos, atravessá-los para que cada vez mais a justiça seja feita por meio do Reconhecimento dos crimes.

Para Rita “Uma das funções do júri é sobretudo a afetação do outro. O sistema de jurídico já não tem mais na figura do estado, ou das leis que dele emanam como único repositório legal. O sistema se original da democracia. O espaço democrático do júri é, sobre tudo, um espaço de interlocução com a subjetividade. E a retórica é o grande arauto do poder do convencimento. É importante ressaltar que o resultado do conselho de sentença (o antigo corpo de jurados), isto é, a sua decisão é soberana.”

Na tragédia grega o reconhecimento, na Poética de Aristóteles, é o momento em que o herói trágico se conscientiza do erro que ele próprio cometeu no passado, erro que o conduziu a sua situação atual. Talvez em termos de justiça democrática os erros devem ser compreendidos como as ações e atitudes da sociedade frente às condições sociais e injustiças sociais.

Ficha Técnica:

Texto: Andressa Medeiros

Vídeos: João Debs

Ministrantes: Octavio Camargo e Brandon La Belle

Colaboração artística de Fernando Marés (cenografia), Gilson Camargo (fotografia e documentação), Chiris Gomes (atuação e agenciamento artístico), Jonatas Medeiros (interpretação e tradução em LIBRAS), Giuliano Robert (video), Felipe Custódio (interpretação em libras e documentação), Andressa Medeiros (atuação e memória), Richard Rebelo (atuação e contação de histórias), João Debs (vídeo), e Fernando Dourado (montagem e operação de luz).

Participantes: Adriana Tabalipa, Beatriz Tomilhero Rosa, Carolina Mascarenhas, Carine Xavier, Camile Vasconcelos, Deise Warken, Eduarda Levandoski, Felipe Ribeiro, Felipe Quadra, Giovanna de Almeida, Henrique Vasconcelos, Hellen Carvalho, Jasmine Quadros, Jaqueline Lau, Jaime Rojas, João Pedro Soares, João Paulo Nascimento, Júlio Santos, Jasmine de Quadros, Katia Horn, Luana Madsen, Luiz Reikdal, Luana Oliveira, Lucas Jara Soares, Matheus Oliveira, Mariana O´Donnell, Maria Céli Camargo, Magdalena Ferrara, Nathalie Rocha, Paula Villa Nova, Rita Lins e Silva, Rosa Maria Dantas, Sérgio Freire Téa Camargo, Magdalena Ferrara, Zoraia Santos, Wynia Martins.

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