17.05.22

Terça-feira, 17/5 – personagem (ethos)
14h Tour no edifício do Centro Cultural Teatro Guaíra, com Áldice Lopes, diretor artístico do teatro.
16h Discussão sobre teatro e amor com Fernando Marés, ator e cenógrafo.
17h as 18h Jogos de improvisação, formas de sincronizar.

No dia 17 de maio de 2022, na cidade de Curitiba, no Auditório Glauco Flores de Sá Brito 35 personagens se encontraram para imergir na história de um espaço público e das pessoas que colocaram em ação o amor político para que um teatro fosse construído.

Manual para a construção de uma peça de teatro

#2 O personagem

Na Poética de Aristóteles as personagens se apresentam de acordo com seu caráter e pensamento, pelo caráter identificamos suas características e qualidades, enquanto o pensamento são as coisas que dizem para demonstrar algo e manifestar suas decisões. O mito se mostra melhor através do pensamento, pois é por meio dele que as personagens demonstram e manifestar as motivações de suas ações. O modo como.as personagens dizem é igualmente importante para realizar o belo.

A elocução é o manejo tanto do poeta quanto dos atores para com o material palavra. Para realizar o belo é fundamental fazer belamente, trabalhando com artesia sons e sílabas tocando amorosamente as palavras.

O narrador

O personagem narrador desse percurso Áldice Lopes, diretor artístico do Teatro Guaíra e ator, faz parte dessa história que, para ele se iniciou em 1979, quando foi assistir ao espetáculo Rasga Coração, de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha. Ali começou sua história de amor com o teatro. Depois, Áldice ingressa como aluno no Curso de Teatro Permanente de Curitiba. fazendo parte da sua penúltima turma, que lutou intensamente para que o CPT se tornasse um curso de formação universitária.

O AMOR PELA ARTE TRANSFORMA

Uma década para se se lembrar

Em 1940, foi lançado um concurso para escolher o projeto para a construção de um novo teatro, o projeto arquitetônico escolhido foi o engenheiro Rubens Meister (1922 – 2009), um dos precursores da arquitetura moderna no Paraná. A construção do teatro incia em em 1952. no terreno onde antes funcionava um quartel de artilharia.

A década de 50 em Curitiba é marcada por obras e projetos para marcar as comemorações do Centenário de Emancipação Política do Paraná em 1953, que tinham por objetivo confirmar Curitiba como lugar do poder e referência para demais cidade do Paraná.

Inicia-se também nessa década a ideia de uma arte não elitizada e que pudesse atingir também a classe trabalhadora, assim eram realizadas apresentações em ambientes alternativos como hospitais, escolas, fábricas, associações beneficientes, praças e ruas. “A emergência de uma arte cujo propósito era efetivar as transformações na estrutura social contribuiu, sobremaneira, no modo de fazer e pensar o teatro.” (Souza, 2010)

Em 1954 é inaugurado o auditório Salvador de Ferrante, o Guairinha, e a primeira apresentação aconteceu em 1955, com a peça Vivendo em Pecado, de Terence Rattigan, com a Companhia Dulcina. Somente em 1971 o grande auditório Bento Munhoz da Rocha Netto, o Guairão, fica pronto, mas devido a um incêndio é inaugurado apenas em 1974, com a estréia do espetáculo Paraná, Terra de Todas Gentes, de Aderbhal Fortes e Paulo Vítola.

O cuidado com as coisas, uma histórias de pessoas e objetos, artesania e potencia artística

As peças eram iluminadas por equipamentos movidos à carvão, peças de ferro pesado, essa mesa de luz, pertenceu ao Teatro Piccolo de Milano, que foi comprado pela Cia, da Fernanda Montenegro, que ao passar por Curitiba, em 1954, a vendeu para o Teatro Guaíra. Esta mesa que vocês olham também foi manipulada pelo iluminador Beto Bruel.

Uma arte do coletivo

O teatro existe como espaço e arte, um lugar público mantido por um coletivo de 300 pessoas, que desempenham diversas funções. Temos um corpo de baile com 30 bailarinos, bailarinas e bailarines, um corpo de dança Master, o G2, com bailarinos e bailarinas de 55 anos a 60 anos de idade. Uma orquestra sinfônica composta por 102 músicos. Além de funcionários técnicos de luz, som, cenotécnicos, marceneiros, costureiras, camareiras, faxineiras, diretores, secretárias e seguranças.

O espaço arquitetônico onde o dentro e o fora se encontram

O teatro é espaço de encontros e de oposições, do encontro do belo e do questionamento político e da potência amorosa da arte. Nesse foyer podemos sentir o contraste entre os pesados blocos de concreto sustentados por estruturas que não se mostram, o contraste entre os vãos e as curvas imponentes das escadas. Arquitetura que remete metaforicamente ao fazer coletivo do teatro que se faz com pessoas que aparecem materializadas no palco em figurinos, cenários, musicalidades e luzes, pessoas que sustentam os artistas que sobem ao palco.

Caminhando neste espaço público fechado, lugar onde a arte se materializa nas diversas artesanias, enquanto os transeuntes passam entre os vãos do prédio, embaixo desse chão onde pisamos.

A mágica da arquitetura e cenografia conceitual de um espaço, deixamos o foyer iluminado, o contato com a praça, a visão do prédio histórico da universidade, os bustos de figuras públicas. Adentramos pela porta do teatro e a luminosidade da rua se esvai, porque a arte é também um contato com nosso interior, onde podemos empaticamente e coletivamente participar de uma manifestação coletiva, permitindo ser tocado pela beleza de corpos que se movem, pela beleza invisível de notas musicais que se espalham pelo ar, tocando nossos circuitos nervosos e nossas emoções, podemos assistir a um espetáculo que nos faz chorar, refletir sobre a realidade ou sobre o sonho.

Talvez possamos entender essa arquitetura como signo ou metáfora para as manifestações artísticas, uma arte que mostra a potência coletiva, que pode interromper realidades brutais, abrindo frestas para o sonho e a imaginação, iluminando questões complexas que se deixam ver na encenação, assim a união do dentro e do fora se estabelecem entre pessoas conhecidas e desconhecidas que sentados lado a lado participam dessa manifestação coletiva, então podemos entender a arte como uma força de amor pública e política.

FERNANDO MARÉS A cenografia encontrando frestas

FERNANDO MARÉS: Entre as palavras de um texto encontramos espaços em branco, entre as palavras ditas há silêncios, por entre frestas a luz passa, criando algo novo todos os dias, chegando de modo fugaz e criando imagens que captam nosso interesse e imaginação.

Para Merleau-Ponty as palavras são vivas e nascentes e abarcam todas as suas referências passadas e futuras, e inclusive “as coisas mudas que [elas] interpelam”. A linguagem “exprime e decuplica a vida das coisas nuas. A linguagem é uma vida, as nossas e a dela” . Merleau-Ponty – O visível e o invisível, p. 125).

Memória enquanto acontecimento

História em processo

A redescoberta inaugural do amor, o toque afetivo do teatro pode estar num momento

O IMAGINÁRIO DO AMOR

O amor é o motivo para algo e a partir dele se desdobram novas coisas, desenhos, poemas, escritas, manifestações que buscam representar e tocar o irrepresentável. O amor é uma imaginação.

Vivemos em relação, mas não estamos 100% na relação, porque existem as demandas do corpo, da materialidade da realidade.

O amor cortês descreveu um amor idealizado, inalcançável movido pela devoção e adoração do ser idealizado. O imaginário do amor que herdamos do amor cortês é de que o amor é difícil.

O amor romântico se baseou num amor que deveria trazer uma realização plena e ser um veículo da felicidade, atingível apenas na realização do casamento. O amor romântico cria o imaginário do amor duradouro, baseado num núcleo familiar, no encontro do par ideal. O amor romântico é atingível, mas se porventura esse amor ideal não chega, ele se torna a razão para a infelicidade e até mesmo a morte.

O movimento filosófico, literário e artístico que começou nos últimos anos do século XVIII, floresceu nos primeiros anos do séc. XIX e constituiu a marca característica desse século. O significado comum do termo “romântico”, que significa “sentimental”, deriva de um dos aspectos mais evidentes desse movimento, que é a valorização do sentimento […] Nos costumes, o amor romântico busca a unidade absoluta entre os amantes (ABBAGNANO, 2002, P. 862).

O amor romântico burguês é idealizado como possível realidade e serve aos valores capitalistas e a ideologia consumista, porque ele difunde a ideia do “e foram felizes para sempre…”,porém a busca incessante por esse amor imaginário e crucial para alcançar a felicidade origina a frustração, por não conseguir construir relações amorosas duradouras, e sofrimento pela dificuldade de amar e ser amado para sempre.

Zoraia Ribeiro dos Santos canta a canção “Ex-amor”, de Martinho da Vila.

Zoraia Ribeiro dos Santos: O amor, ainda no teatro, permanece com uma única cor. E por acaso ele é feito exclusivamente por essa e para essa cor? Onde está o amor? Where’s the love?

Ex-amor
Gostaria que tu soubesses
O quanto que eu sofri
Ao ter que me afastar de ti

Não chorei
Como um louco eu até sorri
Mas no fundo só eu sei
Das angústias que senti

Naquele momento fomos felizes

E se quebrarmos esse paradigma encontrando o amor num reflexo, assim como nesse cristal, que em contato com a luz cria novas formas e luminosidades fractais. No silêncio do teatro e o teatro do silêncio, na fugacidade de uma imagem, um som, de um olhar que reinaugura o encontro entre o público e a platéia, um momento em que o amor artístico chega ao público, reverbera, naquele momento em que o artista deixa de ser um mero repetidor para se relacionar com a público.

Ficha Técnica:

Colaboração artística de Fernando Marés (cenografia), Gilson Camargo (fotografia e documentação), Chiris Gomes (atuação e agenciamento artístico), Jonatas Medeiros (interpretação e tradução em LIBRAS), Giuliano Robert (video), Felipe Custódio (interpretação em LIBRAS), Andressa Medeiros (atuação e memória), Richard Rebelo (atuação e contação de histórias), João Debs (vídeo), e Fernando Dourado (montagem e operação de luz).

Participantes:

Adriana Tabalipa, Beatriz Tomilhero Rosa, Carolina Mascarenhas, Carine Xavier, Camile Vasconcellos, Deise Warken, Eduarda Levandoski, Felipe Ribeiro, Felipe Quadra, Giovanna de Almeida, Henrique Vasconcelos, Hellen Carvalho, Jasmine Quadros, Jaqueline Lau, Jaime Rojas, João Pedro Soares, João Paulo Nascimento, Júlio Santos, Jasmine de Quadros, Katia Horn, Luana Madsen, Luiz Reikdal, Luana Oliveira, Lucas Jara Soares, Matheus Oliveira, Mariana O´Donnell, Maria Celi Camargo, Magdalena Ferrara, Nathalie Rocha, Paula Villa Nova, Rita Lins e Silva, Rosa Maria Dantas, Sérgio Freire, Téa Camargo, Magdalena Ferrara, Zoraia Santos, Wynia Martins.

2 comentários sobre “17.05.22

  1. O amor, ainda no teatro, permanece com uma única cor. E por acaso ele é feito exclusivamente por essa e para essa cor? Onde está o amor? Where’s the love?

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  2. Ex-amor
    Gostaria que tu soubesses
    O quanto que eu sofri
    Ao ter que me afastar de ti

    Não chorei
    Como um louco eu até sorri
    Mas no fundo só eu sei
    Das angústias que senti
    Ex-amor

    […]
    Por Martinho da Vila

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